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Árvores da Amazônia fazem 'contas'? Veja como elas podem mudar de estratégia para sobreviver

Espécie de Paineira-Barriguda (Ceiba samauma) boboletas318 / iNaturalist Quando pensamos na Amazônia, a imagem que costuma surgir é a das copas das árvores ...

Árvores da Amazônia fazem 'contas'? Veja como elas podem mudar de estratégia para sobreviver
Árvores da Amazônia fazem 'contas'? Veja como elas podem mudar de estratégia para sobreviver (Foto: Reprodução)

Espécie de Paineira-Barriguda (Ceiba samauma) boboletas318 / iNaturalist Quando pensamos na Amazônia, a imagem que costuma surgir é a das copas das árvores formando um imenso tapete verde. Mas uma parte decisiva da sobrevivência da maior floresta tropical do planeta acontece longe dos olhos: debaixo da terra. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Uma pesquisa realizada por cientistas brasileiros mostrou que as árvores amazônicas alteram suas estratégias de aquisição de nutrientes de acordo com as condições do solo. Em alguns casos, investem na produção e renovação de raízes finas. Em outros, os resultados sugerem que passam a depender mais da associação com fungos microscópicos capazes de explorar regiões do solo inacessíveis às raízes. O estudo acompanhou, durante dois anos, o comportamento das chamadas raízes finas — estruturas com menos de dois milímetros de diâmetro responsáveis por explorar o solo em busca de água e nutrientes — em parcelas permanentes do Amazon Fertilisation Experiment (AFEX), um dos maiores experimentos de fertilização já realizados em uma floresta tropical. A pesquisa monitorou simultaneamente o estoque, a produtividade e o turnover (taxa de renovação) dessas raízes, algo considerado raro em estudos realizados na Amazônia devido à dificuldade de observar o sistema radicular em ambiente natural. Para a engenheira florestal Jéssica Schmeisk Rosa, doutora em Ciências de Florestas Tropicais do INPA, uma das autoras do trabalho, as plantas respondem às condições do ambiente adotando diferentes estratégias para obter recursos. "As escolhas vão depender do ambiente em que a planta está. Pode ser que construir raízes novas seja mais vantajoso e eficiente do que dar manutenção às raízes mais velhas ou, ainda, que manter essas raízes e investir em micorrizas seja melhor em determinadas condições. As estratégias vão depender das condições ambientais a que esses organismos estão expostos." Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: FOTO: Flagra de zogue-zogue-de-Alta-Floresta com filhote nas costas em ponte de dossel BIG DAY: Instituto promove 2ª ação para observação de araras-azuis-grandes na natureza SOBREVIVÊNCIA: Nova espécie de peixe-das-nuvens é descoberta no Pantanal Uma floresta rica sobre um solo pobre Castanheira-Do-Pará (Bertholletia excelsa) na Amazônia hirosho / iNaturalist Embora a Amazônia seja um dos ecossistemas mais biodiversos do planeta, boa parte dela cresce sobre solos antigos, altamente intemperizados e pobres em nutrientes. Entre os elementos mais escassos estão o fósforo e os chamados cátions básicos, como cálcio, magnésio e potássio. Segundo Jéssica, foi justamente essa limitação que levou as espécies amazônicas a desenvolverem diferentes formas de sobreviver. "As raízes finas são extremamente plásticas. Elas podem ampliar ou reduzir sua área de contato com o solo, aumentar ou diminuir sua longevidade, produzir enzimas, estimular a microbiota ou promover associações com fungos e bactérias para conseguir nutrientes." Essas raízes funcionam como a principal interface entre a planta e o solo e respondem rapidamente às mudanças na disponibilidade de recursos. O fósforo faz a diferença Os pesquisadores esperavam que a adição de fósforo e de cátions básicos provocasse respostas semelhantes nas raízes, já que ambos são naturalmente escassos na Amazônia Central. Mas os resultados mostraram comportamentos bastante diferentes. Quando o fósforo foi adicionado ao solo, houve aumento da produtividade das raízes finas e da taxa de renovação dessas estruturas, sem alteração no estoque total de raízes. Veja o que é destaque no g1: Agora no g1 Na prática, isso significa que as plantas passaram a produzir novas raízes com maior frequência. Segundo a pesquisadora, a explicação está na forma como o fósforo se comporta no solo. "O fósforo tem baixa mobilidade no solo e é extremamente escasso na Amazônia Central. As raízes precisam fazer uma busca intensa por ele e raízes mais jovens podem ser particularmente mais eficientes na absorção de água e nutrientes." Ela explica que, nessas condições, produzir novas raízes pode representar um investimento mais vantajoso do que manter estruturas antigas. Nem sempre crescer mais é a melhor estratégia Imagem de uma Castanheira-Do-Pará (Bertholletia excelsa) eulucasramus / iNaturalist O comportamento foi diferente quando os pesquisadores adicionaram apenas cátions básicos ao solo. Nesse caso, a produtividade das raízes permaneceu praticamente inalterada, enquanto sua longevidade aumentou. Segundo Jéssica, isso acontece porque esses nutrientes são mais móveis e conseguem chegar com maior facilidade até as raízes. "Os cátions básicos estão presentes na solução do solo e as raízes conseguem ter acesso a eles de forma mais fácil. Portanto, não precisam produzir tantas raízes para vasculhar o solo." Essa diferença revelou que as plantas não respondem da mesma maneira a todos os nutrientes. A parceria invisível sob a floresta Os resultados também ajudam a explicar outro mecanismo importante para a sobrevivência das árvores amazônicas: a associação com fungos micorrízicos arbusculares. Esses fungos vivem ligados às raízes e funcionam como uma extensão do sistema radicular, explorando volumes de solo que as raízes sozinhas não conseguem alcançar. Em troca dos nutrientes capturados pelos fungos, a planta fornece compostos de carbono produzidos durante a fotossíntese. "Os fungos fornecem maior eficiência na captura de nutrientes para a planta. Em troca, recebem compostos de carbono fixado pelo processo fotossintético." Segundo a pesquisadora, dependendo das condições do ambiente, essa associação pode representar uma estratégia mais eficiente do que investir continuamente na produção de novas raízes. A 'moeda de troca' das plantas Fungos micorrízicos vistos ao microscópio no instituto de biofísica AMOLF, em Amsterdã. As estruturas circulares são esporos; as cores foram alteradas para facilitar a visualização. Tomás Munita Embora seja tentador dizer que as árvores "fazem contas", Jéssica prefere uma explicação mais próxima da realidade biológica. "É uma boa analogia, mas vale ressaltar que as plantas não fazem contas exatamente como nós. Digamos que a moeda de troca das plantas seja o carbono." Ela explica que construir novas raízes, manter raízes antigas ou investir na associação com fungos representa diferentes formas de utilizar essa energia. Cada estratégia depende das condições encontradas no ambiente. O que isso muda para a ciência A descoberta ajuda a compreender como a Amazônia consegue manter sua produtividade mesmo crescendo sobre solos extremamente pobres em nutrientes. Em 2022, pesquisadores do mesmo grupo publicaram um estudo na revista Nature demonstrando, pela primeira vez, que o fósforo é o principal nutriente limitante da produtividade da floresta amazônica. Agora, o novo trabalho ajuda a explicar como as árvores conseguem lidar com essa limitação, ajustando continuamente suas estratégias de aquisição de nutrientes. Segundo Jéssica, compreender esses mecanismos é essencial para prever como a floresta poderá responder às mudanças climáticas. "Entender como cada nutriente afeta os mecanismos e as estratégias de aquisição de nutrientes contribui para aprimorar os modelos climáticos e prever com mais precisão o que poderá acontecer nesses ecossistemas futuramente." Ela destaca que esse conhecimento também pode orientar políticas públicas voltadas à conservação da Amazônia. "Essa melhor compreensão dos processos pode resultar em modelos climáticos mais precisos e auxiliar em escolhas de políticas públicas ambientais e sociais mais assertivas, para que as mudanças climáticas impactem o menos possível a qualidade do nosso futuro." VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente