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Cheiro de carne queimada, febre amarela: o que é fato e o que é lenda sobre as 'Sete Catacumbas' de Jaboticabal, SP

O que é fato e o que é lenda na história sobre as 'Sete Catacumbas' de Jaboticabal De luzes misteriosas a relatos de pessoas enterradas vivas, uma história ...

Cheiro de carne queimada, febre amarela: o que é fato e o que é lenda sobre as 'Sete Catacumbas' de Jaboticabal, SP
Cheiro de carne queimada, febre amarela: o que é fato e o que é lenda sobre as 'Sete Catacumbas' de Jaboticabal, SP (Foto: Reprodução)

O que é fato e o que é lenda na história sobre as 'Sete Catacumbas' de Jaboticabal De luzes misteriosas a relatos de pessoas enterradas vivas, uma história que mistura morte, epidemia e assombração atravessa gerações e ficou conhecida como "a lenda das Sete Catacumbas" em Jaboticabal (SP), na região de Ribeirão Preto (SP). Segundo a versão popular, sete espanhóis foram enterrados no antigo Cemitério São Bom Jesus do Lazareto durante uma epidemia de febre amarela, no fim do século 19. O medo de que a doença se espalhasse teria levado à queima de corpos e até ao sepultamento de pessoas ainda vivas. Com o passar dos anos, também surgiram relatos de gritos, aparições e cheiro de carne podre nas proximidades do local. A história chegou a ser tema de uma reportagem de uma emissora espanhola. Mas nem tudo o que é contado sobre as catacumbas tem comprovação histórica. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp Para entender o que aconteceu e o que faz parte do imaginário popular, o g1 conversou com o memorialista e fotógrafo José Mario de Oliveira, que pesquisa a história de Jaboticabal. Cemitério São Bom Jesus do Lazareto José Mario de Oliveira O que é fato Uma epidemia de febre amarela atingiu Jaboticabal em 1896. Na época, o medo do contágio levou à criação de cemitérios afastados da área urbana para receber corpos das vítimas da doença. O Cemitério São Bom Jesus do Lazareto, onde fica uma capela de mesmo nome, foi um desses locais. "A epidemia da febre amarela aconteceu em 1896, matou bastante gente na região e, na época, por medo do contágio dela, eles faziam cemitérios longe da cidade. O Cemitério do Senhor Bom Jesus, que é onde hoje está localizada a Capela do Senhor Bom Jesus do Lazareto, estava em um bairro bem distante da cidade." Segundo Oliveira, há registros de óbitos e sepultamentos no cemitério, mas, com o passar do tempo, o espaço foi abandonado e boa parte das sepulturas desapareceu sob a vegetação e pela ação do tempo. "Eles foram enterrando as pessoas que morriam de febre amarela. Em 1931, o local já era lotado. Porém, devido à ação do tempo, pelo abandono de outras épocas e também porque ninguém cuidava do cemitério porque era longe da cidade, as sepulturas foram desaparecendo". Sepulturas que restaram no Cemitério São Bom Jesus do Lazareto José Mario O memorialista também explica que a história das Sete Catacumbas costuma ser confundida com o local das três Catacumbas, outro cemitério de Jaboticabal associado à epidemia. Segundo ele, os dois espaços ficam a cerca de 15 quilômetros um do outro e têm origens diferentes. As três catacumbas estariam ligadas à história de uma família em que pai, mãe e filha morreram enquanto tentavam chegar à cidade em busca de atendimento médico. Os três teriam sido sepultados em uma estrada rural conhecida como Estrada do Carretão. "Nesse lugar, eles foram sepultados, ali mesmo, por medo do contágio e é o que deu origem às três catacumbas. Nós não sabemos, não conseguimos identificar o nome de quem morreu ali”. Três catacumbas na Estrada do Carretão José Mario O que é lenda Já a versão de que sete espanhóis morreram em Jaboticabal durante a epidemia e passaram a assombrar o Cemitério São Bom Jesus do Lazareto ganhou força com a divulgação da história em uma reportagem na televisão espanhola. O memorialista conta que a narrativa começou a circular no início dos anos 2000, depois de uma atividade de campo realizada por participantes de um curso de biopsicoenergia no Cemitério São Bom Jesus do Lazareto. Entre eles, estavam dois espanhóis, que teriam passado mal durante a visita. "Ali o pessoal passou um pouco mal, e foi tão traumatizante para eles". José conta que o curso terminou após o episódio e, quando os espanhóis voltaram ao país, associaram a cidade a relatos sobrenaturais e venderam essa ideia para a TV. A reportagem entrou no ar em novembro de 2006, segundo o memorialista, e isso fez com que a cidade ficasse popular e começasse a ser conhecida pela lenda e aparecessem mais relatos. "Ambos voltaram para a Espanha depois e, até onde eu levantei, contaram essa história lá para um tipo desses programas de TV, que são aqueles programas espetaculares, e eles acabaram fazendo uma edição do programa falando a respeito de um cemitério fantasma que existia em um vilarejo no interior de São Paulo." Túmulo onde está enterrada uma das pessoas que morreram durante a febre amarela José Mario José Mario afirma que não encontrou registros históricos que comprovem a versão de que os espanhóis da lenda morreram na cidade sem conseguir voltar ao país de origem e que, por isso, assombrariam o local. “Os registros das pessoas que estão enterradas no cemitério do Lazareto são de italianos, brasileiros e também espanhóis. Agora, não existe nenhum registro histórico que comprove essa história deles.” Outra parte da lenda afirma que pessoas teriam sido enterradas vivas ou queimadas durante a epidemia. Para o memorialista, essas versões não têm comprovação e podem estar relacionadas ao desconhecimento das condições sanitárias da época e a relatos de movimentos involuntários observados após a morte. “As pessoas morriam e, segundo relatos médicos, existiam alguns espasmos após a morte delas e as pessoas diziam que eram enterradas vivas. Agora, sobre elas terem sidos queimadas, não há registro oficial na cidade”, explica. Para José Mario, a mistura entre fatos históricos e versões fantasiosas ajuda a explicar por que a história continua despertando curiosidade em Jaboticabal. "São coisas que vêm sendo contadas. As lendas vão continuar." Capela no Cemitério São Bom Jesus do Lazareto José Mario *Sob a supervisão de Rodolfo Tiengo. Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região